Usina abre exposição ‘Sobre face’, de Chico Dantas

A Usina Cultural Energisa abriu ontem a exposição individual ‘Sobre face’, do artista plástico paraibano Chico Dantas. A mostra faz parte do calendário de exposições selecionadas a partir do Edital de Ocupação 2017/2018, da Galeria de Arte da Usina. O vernissage começa às 20h, na Usina Cultural Energisa, em João Pessoa.

‘Sobre face’, expõe 55 desenhos exclusivos e inéditos, produzidos a partir de técnica mista sobre papel Canson, entre 2016 e 2018. A coletiva tem curadoria do artista visual Dyógenes Chaves. A visitação é aberta ao público e fica em cartaz de 28 de setembro a 28 de outubro, de terça a domingo, das 14h às 20h.

Na exposição, Chico Dantas se debruçou sobre o fenômeno da selfie. Ele tomou, aleatoriamente, imagens de selfies do Facebook e os recriou a partir do seu olhar. Se o selfie é também uma autoimagem onde o retratado busca apresentar, de forma seletiva, como gosta que os outros o vejam, os desenhos de Chico Dantas são uma versão irônica e transversal dessas autoimagens.

O Edital de Ocupação da Galeria 2017/2018 é realizado e patrocinado pela Energisa Paraíba, por meio da Lei Rouanet (Ministério da Cultura).

O Edital 2017-2018 selecionou 19 artistas, todos paraibanos. São eles: Everton David, Flauberto, Leandro Pereira da Costa, Mirabeau Menezes, Addisseny, Alessandra Soares, Antonio Filho, Ariel Coletivo Literário, Erik Kleiver, Artur Maia, Geóstenys Melo, João Vianey, Karla Noronha, Luciana Urtiga, Meiacor (Américo Gomes de Almeida Filho), Paulo Rossi, Ton Limongi, Versales (Luiz Ricardo Sales) e Vinagre. Além deles, Flavio Tavares e Roberto Coura foram os artistas convidados a compor esse seleto time, em reconhecimento a obra de ambos. Os selecionados ocuparam a programação de arte visual da Usina com exposições, distribuídas durante o período oferecido pelo edital.

A programação de arte visual da Usina tem intuito de incentivar e expandir a cultura e a arte local aos Paraibanos.

Serviço:

Exposição ‘Sobre face’, de Chico Dantas

Data: Abertura nesta quinta-feira, 1º de fevereiro, às 20h (vernissage)

Exposição aberta ao público de 1º a 24 de fevereiro, de terça a domingo, das 14h às 20h.

Local: Usina Cultural Energisa

Rua João Bernardo de Albuquerque, 243 – Tambiá – João Pessoa-PB

Entrada Gratuita

www.uceocupacaoartesvisuais.com.br

Contato Curadoria:

Dyógenes Chaves

Tel: (83) 9 8808-7877

Contatos Artistas:

Chico Dantas – (83) 98680.3713 e 3231.2906

E-mail: chicodantas81@hotmail.com

Sobre as exposições:

Sobre face, por Gabriel Bechara Filho

No início, o artista da pré-história teve receio de representar a face humana. A Vênus de Willendorf é apenas um desses exemplos que se repetiram por toda a Europa. A primeira face realista representada foi a dos animais. Quando o homem aparece de forma mais nítida, ganha a imagem de um xamã dançando com cabeça de veado. No mundo antigo, a face humana esteve quase sempre representada sob a forma esquemática, como nas culturas do crescente fértil ou idealizadas, como na cultura clássica. A imagem realista do escriba sentado, ícone do Departamento de Antiguidades Egípcias do Museu do Louvre, foi concebida apenas para a escuridão da tumba. Só no helenismo e na arte romana é que o retrato foi apresentado sem receio, expressão de uma sociedade que se laicizava com predomínio de mercadores. O fundamentalismo judaico-cristão e islâmico fez recuar essa via, trazendo de volta a imagem esquemática, quando não, a sua obsessiva proibição, interdição e iconoclastia. Afinal, a imagem do ser singular se reporta à liberdade individual e isso era visto pelos modelos fundamentalistas-totalitários, como um grave perigo, não apenas à tradição, mas ao controle das pessoas e da comunidade como um todo.

O Renascimento resgatou a imagem individual, já presente nos pincéis de Giotto, enquanto o retrato autônomo se afirmava na arte da sociedade burguesa flamenga. O realismo psicológico virou um ponto focal na arte européia, desde então, a ponto do Papa Inocêncio X reclamar de Velasquez: “É troppo vero!”.

Essa busca pela afirmação da individualidade, não apenas das elites, mas também dos mendigos, na arte de Murilo e Ceruti afora os trabalhadores na de Daumier e Millet, dominam o campo visual da arte européia que teria como inevitável consequência a descoberta da técnica fotográfica e com ela, a generalizada imagem globalizada da carte-de-visite. O retrato não apenas a “viralizou”, mas se tornou obrigatório nos documentos de identidade. O velho interdito da iconoclastia deu lugar ao uso obrigatório, até mesmo em países que guardam ciosos o fundamentalismo religioso.

Com a internet e o Facebook, a auto-imagem do selfie tornou-se uma das principais plataformas da mídia. Se o retrato realista apareceu na baixa-antiguidade e no Renascimento como uma reação à dimensão niveladora da sociedade tradicional que desconsiderava a individualidade, em favor da coletividade, o selfie de hoje é uma reação ao anonimato da sociedade urbano-industrial globalizada, igualmente niveladora. Afinal, o selfie pressupõe a retirada de todas as burcas e véus… mesmo quando os neo-totalitários armazenam essas imagens para reaviar o sonho quimérico de querer um dia manipular os homens, como fizeram os “deuses”.

Chico Dantas se debruçou sobre esse último fenômeno. Ele tomou, aleatoriamente, imagens de selfies do Facebook e os recriou a partir do seu olhar. Se o selfie é também uma auto-imagem onde o retratado busca apresentar, de forma seletiva, como gosta que os outros o vejam, os desenhos de Chico Dantas são uma versão irônica e transversal dessas auto-imagens.

O desenho foi sempre o núcleo central da arte do artista, desde os seus primeiros trabalhos, nos anos 70. Nele, a figura humana ganhou uma posição de destaque, logo em seguida a dos objetos. Mas as que surgem nos trabalhos dos anos 80 são espectrais, flutuam num espaço atemporal como se nos espreitassem numa outra dimensão a que o artista nos facultou a entrada. Essa série que a Usina Cultural Energisa tem a honra de apresentar, traz imagens de pessoas que se mostram na rede virtual da internet.

O artista não se limita a reproduzi-las, ao contrário, ele ousa revelar o que talvez os autores dos selfies quase sempre, pretendem esconder. Os desenhos são retratos de homens e mulheres que se mostram a nós num plano virtual paralelo, ao que os autores buscaram se apresentar. Ora risonhos, ora desconfiados, tristes, irônicos, sonhadores, sarcásticos, reflexivos e descontraídos, os desenhos contornam máscaras que, paradoxalmente, buscam revelar o que se encontra por detrás delas.

Currículo do artista

Chico Dantas é natural de Santa Luzia, Paraíba (1950). Transferiu-se para João Pessoa em 1964 onde vive e trabalha atualmente.

Dirigiu a Galeria de Arte Archidy Picado na Fundação Espaço Cultural da Paraíba-Funesc, em João Pessoa, por 5 anos, no mesmo período em que ministrou cursos de pintura e desenho. Participou de salões de arte e bienais no Brasil e no exterior onde realizou exposições individuais e participou de inúmeras coletivas; dirigiu workshops e ministrou palestras sobre O destino do desenho na era digital e Vídeoarte em suporte digital no Casarão 34, na Usina Cultural Energisa em João Pessoa, e no Centro Cultural Banco do Nordeste-CCBNB na cidade de Sousa, Paraíba. Em 2016 realizou a exposição de desenhos Sobre Face na Galeria de Arte Lavandeira (CCTA/UFPB, João Pessoa). Outras mostras e participações: mostra Diário de Café na Usina Cultural Energisa (João Pessoa, 2014); XIII Mostra do Filme Livre (Rio, Brasília, São Paulo, 2014); Terceira Bienal da Bahia (Salvador, 2014); ministrou a oficina de edição de vídeo O Artista Editor no programa Desafios Contemporâneos/ Funarte na Estação das Artes Luciano Agra (João Pessoa, 2013); participou do XVIII Festival Internacional de Arte Contemporânea SESC Videobrasil (São Paulo, 2013); recebeu o prêmio Setembro Fotográfico, promovido pela Fundação Cultural de João Pessoa-Funjope (João Pessoa, 2012); premiado no Salão Municipal de Artes Plásticas-Samap (Funjope, João Pessoa, 2012), com o vídeo Especimens II; Em 2011 foi contemplado com o Prêmio Energisa de Artes Visuais (Mídia contemporânea, com o vídeo Terceiros) na Usina Cultural Energisa (João Pessoa, 2012); participou do XVII Festival Internacional de Arte Contemporânea SESC Videobrasil (São Paulo, 2012);  do Festival de Cinema e Vídeo Visões Periféricas (Rio de Janeiro, 2012); recebeu o prêmio Curta Metragem Experimental da Academia Paraibana de Cinema (com o vídeo Alquimia com Livro e Luvas) (João Pessoa, 2010); participou do I Festival de Vídeo da Estação Ciências (João Pessoa, 2010); participou do projeto Pontos de Vista (Basel, Suíça, 2009) com o vídeo Pele-Haut-Peau; da XV Bienal Internacional de Arte de Cerveira (Portugal e Espanha, 2009), com o vídeo Alquimia com Livro e Luvas; realizou mostra individual no Centro de Arte de São João da Madeira (Portugal, 1994); exposições individuais na Galeria da Cooperativa Árvore (Porto, Portugal, 1995 e 2005); realizou exposição individual no IBEU Copacabana (Rio de Janeiro, 1989) e no Escritório de Arte Guilherme Eustáchio (Recife, 1989); mostra individual na Mini-Galeria da Biblioteca Popular de Botafogo (Rio de Janeiro, 1991); prêmio de pintura no Salão Cidade do Recife (Recife, 1982); participou da XVI Bienal Internacional de São Paulo (São Paulo, 1981); contemplado com o prêmio de pintura no II Salão Arte/Universidade (João Pessoa, 1979).

A Usina

A Usina Cultural Energisa, desde sua criação em 2003, tem sido palco de grandes eventos, como o Festival de Cinema de Países de Língua Portuguesa (Cineport), Prêmio Energisa de Artes Visuais, entre outros. E a Usina não para. Uma programação mensal com projetos permanentes como Usina da Música, Domingo na Usina, Violadas, e espaços como a Galeria de Arte, Livraria da Usina, Espaço Energia e Café da Usina, atraem diariamente um público interessado em apreciar shows, concertos, exposições, lançamentos de livros, cinema, teatro.Em 2015, retomamos a ocupação da galeria de arte da Usina com uma série de exposições, coletivas e individuais, com destaque para a produção local e propondo o reconhecimento desses artistas, notadamente daqueles talentos surgidos no Arte na Empresa, programa de exposições realizado ininterruptamente pela Energisa, na Paraíba, desde 2008, nas cidades de Patos, Campina Grande e João Pessoa.

As exposições desta temporada “local” se estenderão até meados de 2018, sendo a galeria ocupada periodicamente por coletivas e individuais, de artistas selecionados pelo Edital de Ocupação da Usina Cultural Energisa 2017-2018. Com essa iniciativa, o público tem oportunidade de melhor conhecer a produção dos artistas da nossa terra.

É a Usina Cultural Energisa, que cumpre o seu papel na geração de cultura e arte, fazendo dessa honrosa missão um marco de aproximação entre artistas e público.